• 16 de julho de 2026
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quinta-feira, 16 de julho de 2026 | Wesslley Sales

Marco Rubio tenta salvar Flávio Bolsonaro das tarifas de Trump sobre o Brasil, mas os fatos desmentem sua narrativa

Discurso do secretário de Estado americano entra em choque com documentos oficiais dos EUA e fortalece narrativa destinada a tentar proteger Flávio Bolsonaro do desgaste provocado pelo tarifaço. Porém, a estratégia não é nova e não parou o Brasil.

Há algo curioso na mais recente crise comercial entre Brasil e Estados Unidos. Enquanto Donald Trump volta a impor tarifas sobre produtos brasileiros, Marco Rubio corre para vender uma versão política da história. O secretário de Estado americano tenta convencer a opinião pública de que a responsabilidade pela escalada está no governo brasileiro. Mais do que isso: procura aliviar o desgaste político de Flávio Bolsonaro, que disputa uma eleição presidencial justamente no momento em que um aliado internacional de sua família cria dificuldades para exportadores, produtores e empresas brasileiras.

A estratégia não é nova.

Quando Trump utilizou o tarifaço para pressionar o Brasil durante os embates envolvendo Jair Bolsonaro, o resultado prático foi próximo de zero. As instituições brasileiras continuaram funcionando normalmente. O Judiciário não interrompeu seus processos. O Congresso não mudou sua atuação. Os órgãos de controle mantiveram suas atribuições. O tarifaço gerou ruído político, mas não produziu o efeito institucional que seus defensores imaginavam.

Agora a história se repete.

A diferença é que desta vez as tarifas surgem em pleno ambiente eleitoral. E isso cria um problema evidente para Flávio Bolsonaro. Afinal, como explicar ao eleitor brasileiro que um dos principais aliados internacionais do bolsonarismo está impondo barreiras comerciais que atingem setores da economia nacional?

É aí que entra Marco Rubio.

Ao afirmar que a culpa seria do governo Lula e da falta de disposição do Brasil para negociar, Rubio tenta deslocar o foco do verdadeiro problema: a decisão partiu da administração Trump. Foi Washington quem abriu a investigação. Foi Washington quem recomendou as sanções. Foi Washington quem decidiu aplicar as tarifas.

E o mais interessante é que os próprios documentos oficiais americanos desmontam a narrativa política construída por Rubio. E não apenas isso, os argumentos do USTR não condizem com a realidade brasileira e muito menos ataca qualquer competitividade comercial como alegam.

O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, responsável pela investigação que serviu de base para a medida, não apresentou como justificativa central qualquer questão relacionada à democracia brasileira, perseguição política ou situação eleitoral. Pelo contrário. O relatório e as manifestações oficiais falam de alegadas práticas comerciais desleais, regras do mercado digital, propriedade intelectual, sistema de pagamentos, políticas ambientais e acesso de empresas americanas ao mercado brasileiro. 

Ou seja, enquanto Rubio faz discurso político, a investigação usada para justificar a tarifa fala de comércio.

As duas versões simplesmente não batem. O bolsonarismo aceita essa história, mas nem mesmo a direita brasileira que dá sustentação a Flávio Bolsonaro engole essa conversa, sobretudo aqueles ligados ao agro.

Se a motivação fosse realmente política, por que o governo americano mobilizou uma investigação comercial conduzida pelo USTR? Por que listou supostas práticas econômicas consideradas problemáticas? Por que a recomendação formal foi baseada na legislação comercial americana, especificamente na Seção 301, tradicionalmente usada para disputas econômicas? 

Há outro detalhe incômodo para a narrativa de Rubio.

Nos próprios debates realizados em Washington, Flávio Bolsonaro procurou se distanciar das tarifas. O senador chegou a defender o PIX e argumentou contra a aplicação das medidas, justamente porque percebeu o potencial desgaste político da decisão. Em outras palavras: até mesmo quem deveria ser beneficiado pela pressão americana entendeu que a conta poderia chegar à campanha eleitoral. 

E faz sentido.

Nenhum candidato gosta de entrar numa eleição carregando a imagem de que seu principal aliado internacional está prejudicando exportações brasileiras.

Por isso a fala de Rubio parece menos uma análise dos fatos e mais uma operação política de contenção de danos.

O objetivo é evidente: tentar convencer o eleitor de que Trump, um aliado da família Bolsonaro, não é o responsável pela crise; o responsável seria Lula. O problema é que essa versão esbarra nos documentos oficiais produzidos pelo próprio governo americano.

Foi o USTR que recomendou as tarifas.

Foi a administração Trump que as aprovou.

Foi Washington que decidiu aplicá-las.

Rubio pode tentar reescrever a história para consumo eleitoral. Mas os registros oficiais continuam mostrando que a justificativa formal das sanções foi econômica e comercial, não política. 

No fim, a pergunta não é se Trump está ajudando Flávio Bolsonaro. A pergunta é se o eleitor brasileiro aceitará a tese de que a culpa por uma tarifa criada em Washington pertence exclusivamente a Brasília.

Até aqui, os fatos apontam justamente na direção contrária.

 Marco Rubio tenta salvar Flávio Bolsonaro das tarifas de Trump sobre o Brasil, mas os fatos desmentem sua narrativa  


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