A carta enviada por Flávio Bolsonaro ao governo dos Estados Unidos trouxe um elemento novo para uma pré-campanha que já enfrenta turbulências. Depois da crise pública com Michelle Bolsonaro, do desgaste provocado pelo caso Daniel Vorcaro e de pesquisas mostrando dificuldades para consolidar sua candidatura, o senador agora tenta convencer Washington a recuar de medidas que podem atingir diretamente a economia brasileira.
Durante meses, setores do bolsonarismo trataram a proximidade com Trump como um ativo político. Mas a imposição de tarifas contra produtos brasileiros transformou o aliado internacional em uma potencial dor de cabeça eleitoral. O próprio Flávio reconhece isso na carta enviada ao governo americano. O senador propõe substituir as tarifas por sanções direcionadas a autoridades específicas e pede uma suspensão de 180 dias para abrir negociações. Argumenta que a medida fortalece Lula e prejudica a oposição. É um reconhecimento explícito de que a estratégia adotada por Trump não está produzindo o efeito político esperado pelos adversários do governo. Pelo contrário: segundo o próprio senador, o tarifaço pode acabar transformando Lula em vítima de uma agressão externa e gerar ganhos eleitorais para o Planalto. Lula, não perdeu tempo e já foi às redes sociais acusar o Senador e família Bolsonaro de "traidores da pátria".
Em ano eleitoral, uma sobretaxa americana sobre produtos brasileiros teria potencial para produzir efeitos econômicos e políticos difíceis de controlar. Se setores produtivos passarem a associar o tarifaço ao ambiente de tensão criado entre aliados brasileiros e americanos, a oposição pode acabar dividindo o custo político de uma medida que pretendia desgastar o governo Lula. É justamente esse raciocínio que aparece na manifestação apresentada por Flávio ao governo americano. Outro aspecto relevante é que o pedido de suspensão por 180 dias coincide com um período decisivo do calendário eleitoral. Formalmente, a justificativa apresentada é abrir espaço para negociações bilaterais e evitar prejuízos econômicos. Politicamente, porém, o adiamento também retiraria do debate eleitoral imediato um tema potencialmente desgastante para a oposição. Essa é uma interpretação plausível do cenário, embora não declarada pelo senador.
Mas há um outro detalhe que também torna sua posição especialmente delicada: o Pix.
Na manifestação encaminhada ao USTR, Flávio saiu em defesa do sistema de pagamentos instantâneos, afirmando que ele não representa uma prática comercial desleal contra empresas americanas. Mais do que isso, destacou que o Pix foi uma das principais marcas do governo de Jair Bolsonaro e ajudou a ampliar a inclusão financeira no Brasil. Até aí, nenhuma novidade.
O problema aparece quando o senador propõe aos Estados Unidos uma espécie de garantia política: impedir que o Pix seja integrado, no futuro, a sistemas de pagamentos transfronteiriços considerados "não ocidentais". Na prática, a referência é a mecanismos ligados à China e a iniciativas internacionais que possam reduzir a dependência do dólar nas transações globais. É justamente aí que Flávio passa a caminhar na corda bamba.
De um lado, ele precisa defender um instrumento que o próprio bolsonarismo adotou como símbolo de modernização econômica. Afinal, o Pix se tornou uma das políticas públicas mais populares dos últimos anos e qualquer ataque frontal ao sistema teria enorme custo político.
De outro, tenta responder às preocupações da administração Donald Trump, que incluiu o Pix entre os temas observados na investigação comercial aberta contra o Brasil. O argumento americano é que o sistema poderia favorecer operadores nacionais e reduzir espaço para empresas financeiras estrangeiras. O resultado é uma posição contraditória.
Flávio afirma que o Pix não deve ser punido. Mas, ao mesmo tempo, oferece concessões para tranquilizar Washington. Em vez de defender apenas a soberania brasileira sobre o sistema, sugere limites futuros ao seu desenvolvimento internacional.
No fim das contas, a carta revela mais do que uma divergência comercial. Ela mostra um pré-candidato tentando administrar um problema criado justamente pelo aliado internacional que durante anos foi apresentado como uma vantagem política. E mostra que, quando o assunto é o Pix, Flávio Bolsonaro parece ter descoberto que nem toda demanda de Washington cabe facilmente dentro do discurso construído pelo próprio bolsonarismo.
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