• 4 de junho de 2026
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2025 | Wesslley Sales

Lei da Ficha Limpa: Dados desmentem Jair Bolsonaro e mostram que direita não é perseguida, como alega o ex-Presidente

O ex-Presidente e 33 aliados foram denunciados nesta terça-feira (18) pela PGR por golpe de estado horas depois de um encontro de Bolsonaro com parlamentares para tratar sobre projeto de anistia.

Um levantamento exclusivo do site Metrópoles, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela que a Lei da Ficha Limpa — alvo de críticas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que defende sua revogação — não poupou partidos de esquerda nas últimas eleições. Ao contrário do que afirma o político, que alega perseguição a "direitistas", números dos últimos dez anos mostram que siglas da base aliada do presidente Lula (PT) lideram o ranking de candidaturas barradas pela legislação anticorrupção.

A polêmica e os números
Inelegível até 2030 por decisão do TSE, Bolsonaro declarou recentemente que a Lei da Ficha Limpa "serve hoje apenas para perseguir políticos de direita". Os dados, porém, desmontam a narrativa. De 2016 a 2024, o PT teve 333 candidaturas indeferidas pela lei, ante 259 do PL (partido do ex-presidente). A diferença é ainda mais expressiva em partidos históricos da esquerda: o PSB, do vice-presidente Geraldo Alckmin, registrou 377 barrados; o PDT, 331.

Na última eleição municipal (2024), o PT manteve a dianteira: 122 candidatos tiveram registros negados, um a mais que o PL (121). No total, 1.968 postulantes foram barrados — a maioria concorria a vereador (1.736). Entre os grandes partidos, o MDB liderou (196), seguido por PP (162), PSD e União Brasil (161 cada), e Republicanos (137).

"A lei não escolhe lado", dizem especialistas
Criada em 2010 após uma iniciativa popular com 1,6 milhão de assinaturas, a Lei da Ficha Limpa foi celebrada como um avanço contra a impunidade. Ela impede a candidatura de políticos condenados por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro ou abuso de poder em decisões colegiadas.

"Os números comprovam que a lei é aplicada de forma técnica, sem viés ideológico. Quem está inelegível é porque cometeu irregularidades graves, independentemente do partido", afirma o jurista Carlos Dias, especialista em direito eleitoral.

Bolsonaro e o contra-ataque à legislação
A defesa de Bolsonaro pela revisão da lei ganhou força após sua condenação no TSE, em 2023, por abuso de poder político durante as eleições. O ex-presidente alega que o texto é "manipulável" e usado para "censurar opositores". A tese, no entanto, não se sustenta diante do histórico: em 2018, por exemplo, o então candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, quase teve sua chapa barrada por irregularidades na campanha.

Apelo à anistia

Bolsonaro deposita esperança no projeto que busca perdoar os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023, vendo nele uma estratégia para blindar aliados e reaquecer sua base política. Ao defender a proposta durante encontro com parlamentares da oposição nesta terça-feira (18), o ex-presidente busca não apenas reverter condenações de apoiadores presos, mas também reafirmar influência no Congresso, articulando uma frente contra o governo Lula. A despreocupação declarada com uma eventual denúncia da PGR — "zero preocupação", nas palavras dele — reflete a aposta de que a anistia, se aprovada, possa servir como um escudo jurídico e político, diluindo responsabilidades e reorientando o foco do debate público para o embate partidário, em vez das investigações que o cercam.

Para Bolsonaro, já há maioria na Câmara dos Deputados para aprovar o projeto de anistia.

Bolsonaro é denunciado pela PGR e defesa nega participação em crimes

A Procuradoria-Geral da República (PGR) formalizou denúncia contra Jair Bolsonaro e outros 33 aliados, acusando-os de liderar uma organização criminosa armada e articular um golpe de Estado para subverter a democracia. Entre os crimes listados estão tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado ao patrimônio público e discurso golpista reiterado desde 2021. Segundo o procurador-geral Paulo Gonet, Bolsonaro intensificou ataques às instituições e ao sistema eleitoral após a anulação das condenações de Lula, criando um cenário de instabilidade que culminou na elaboração de um decreto autoritário em dezembro de 2022. O documento, encontrado na casa do ex-ministro Anderson Torres, previa a decretação de Estado de Defesa e a criação de uma comissão para revisar os resultados eleitorais, além de pressionar as Forças Armadas a apoiarem medidas excepcionais. A delação de Mauro Cid ainda revelou ordens diretas de Bolsonaro para monitorar o ministro Alexandre de Moraes, como parte da Operação "Copa 2022", e o estímulo a acampamentos golpistas na expectativa de uma intervenção militar.

A defesa de Bolsonaro nega todas as acusações, classificando-as como "perseguição política" e destacando a ausência de provas materiais. Advogados do ex-presidente argumentam que as críticas às instituições e ao sistema eleitoral foram exercícios legítimos de liberdade de expressão, além de afirmarem que os acampamentos pró-golpe foram movimentos espontâneos, sem vinculação direta com o ex-mandatário. Quanto ao decreto, alegam que o texto jamais foi formalizado e que discussões internas sobre cenários hipotéticos são parte da rotina governamental. O caso agora segue para análise do Supremo Tribunal Federal (STF), que decidirá se aceita a denúncia. Se homologada, Bolsonaro será formalmente réu e o processo avançará para a fase de instrução, com possibilidade de interrogatórios e novas delações. A defesa poderá apresentar recursos para trancar a ação, enquanto a PGR buscará consolidar as evidências, incluindo testemunhos de militares e documentos apreendidos. O desfecho, que pode levar anos, definirá não apenas o futuro jurídico de Bolsonaro, mas também o impacto político de um dos capítulos mais turbulentos da recente democracia brasileira.

E agora?
Com a eleição de 2026 no horizonte, a pressão por mudanças na legislação deve crescer — principalmente se novos nomes da base bolsonarista forem barrados. Para entidades da sociedade civil, porém, flexibilizar a Ficha Limpa seria um retrocesso. "Ela é um dos poucos mecanismos que funcionam contra a velha política", resume Irene Nogueira, coordenadora da Transparência Brasil.

Enquanto isso, os números do TSE seguram o recado: a lei não é armadilha partidária, mas espelho de quem insiste em jogar sujo.

Tabela feita pelo site Metrópoles com base nos dados do TSE.

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