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domingo, 21 de dezembro de 2025 | Wesslley Sales

Mercosul cobra democracia na Venezuela — e o gritante silêncio do Brasil ecoa no mundo

A escolha brasileira transmite a mensagem de que violações de direitos humanos podem ser relativizadas quando cometidas por governos ideologicamente alinhados. Isso enfraquece o discurso histórico do Brasil como defensor da democracia.

A mais recente Cúpula do Mercosul evidenciou, de forma cristalina, o isolamento político do Brasil em relação ao tema venezuelano. Enquanto países do bloco e associados divulgaram um comunicado conjunto exigindo respeito à democracia, aos direitos humanos e às liberdades políticas na Venezuela, o governo brasileiro optou por não subscrever o documento.  

A ausência do Brasil no texto final não foi um detalhe protocolar. Trata-se de um gesto político relevante, sobretudo por partir do maior país da América do Sul e principal liderança regional. Na prática, o Palácio do Planalto decidiu não endossar uma cobrança pública ao regime de Nicolás Maduro, mesmo diante do agravamento das denúncias de repressão, prisões arbitrárias e manipulação eleitoral no país vizinho.

O governo Lula tem reiterado que a crise venezuelana deve ser tratada sob o princípio da não intervenção e do respeito à soberania nacional, defendendo o “diálogo” como único caminho possível. O discurso oficial rejeita sanções mais duras, condena qualquer hipótese de pressão externa mais incisiva e trata críticas diretas ao regime Maduro como potenciais fatores de instabilidade regional.

Em declarações públicas, o presidente brasileiro chegou a classificar uma eventual intervenção internacional como uma “catástrofe humanitária”, além de afirmar que cabe apenas ao povo venezuelano resolver seus impasses internos. Na prática, essa retórica tem servido como blindagem diplomática a um regime amplamente acusado de práticas autoritárias, relativizando denúncias consistentes feitas por organismos internacionais, entidades de direitos humanos e governos estrangeiros.

Uma ditadura consolidada sob aparência institucional

Desde que assumiu o poder, em 2013, Nicolás Maduro construiu um modelo autoritário sustentado por instituições capturadas. O Conselho Nacional Eleitoral, o Judiciário e os órgãos de controle atuam de forma alinhada ao Executivo, esvaziando qualquer noção de freios e contrapesos.

As eleições presidenciais mais recentes, realizadas sob forte contestação internacional, escancararam a falta de transparência do processo. Houve denúncias de: ausência de observadores eleitorais independentes; restrições à imprensa e censura sistemática; bloqueio ou inviabilização de candidaturas opositoras; divulgação incompleta e questionável dos resultados oficiais.

Lideranças com real potencial eleitoral, como María Corina Machado, foram impedidas de concorrer por decisões administrativas e judiciais consideradas arbitrárias por observadores externos. Outros nomes da oposição enfrentam processos criminais, exílio forçado ou impedimentos políticos permanentes.

A repressão não se limita ao campo eleitoral. Relatórios de organismos internacionais apontam prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados, tortura e mortes de opositores políticos, além da criminalização sistemática da dissidência.

O sistema judicial venezuelano tem sido usado como instrumento de perseguição política, com acusações de terrorismo, conspiração e traição à pátria sendo direcionadas a líderes opositores, ativistas, jornalistas e defensores de direitos humanos. O ambiente de medo e intimidação impede qualquer disputa política minimamente livre. Em julho do ano passado o Presidente Lula chegou a afirmar que só reconheceria a eleição que reelegeu o Governo após apresentação das atas das urnas eleitorais, mas paralelo a isso o Partido dos Trabalhadores soltou nota onde viu o processo eleitoral como " pacífico", apesar de quatro mortes e quase cinquenta feridos com a repressão do Governo contra manifestantes que não reconhecem a vitória de Maduro. 

Até o momento o Governo da Venezuela não apresentou as atas das urnas eleitorais e nem o Conselho Nacional Eleitoral, que proclamou a reeleição com 51,20% dos votos, publicou até hoje os resultados discriminados por mesa e centro de votação. O Presidente Lula, consequentemente não reconheceu oficialmente a vitória de Nicolás Maduro, mas mantém uma defesa do regime venezuelano e relação diplomática como se isso fosse apenas um detalhe aceitável na América do Sul. Isso torna-se evidente na Cúpula do Mercosul realizada neste final de semana.

O contraste regional e o custo do silêncio brasileiro

Ao se recusar a assinar o comunicado do Mercosul, o Brasil se afastou de países que, mesmo com diferenças ideológicas, reconhecem que não há normalidade democrática na Venezuela. Argentina, Paraguai e outros membros do bloco optaram por uma posição mais firme, ainda que diplomática, diante das violações recorrentes.

A escolha brasileira, ao contrário, transmite a mensagem de que violações de direitos humanos podem ser relativizadas quando cometidas por governos ideologicamente alinhados. Isso enfraquece o discurso histórico do Brasil como defensor da democracia e dos direitos fundamentais no plano internacional.

Ação dos Estados Unidos contra o regime Maduro

Em contraponto à postura brasileira, os Estados Unidos adotaram uma estratégia mais assertiva em relação à Venezuela, combinando pressão diplomática, sanções econômicas e ações judiciais internacionais. Entre as principais medidas norte-americanas estão:

  • sanções diretas contra Nicolás Maduro e membros do alto escalão do regime, incluindo bloqueio de bens e restrições financeiras;

  • acusações formais em tribunais dos EUA contra figuras do governo venezuelano por narcotráfico e lavagem de dinheiro;

  • não reconhecimento de processos eleitorais considerados fraudulentos;

  • apoio político e diplomático à oposição democrática venezuelana.

  • bloqueio marítimo ao petróleo exportado pela Venezuela, além da explosão de diversas embarcações sob alegação de combate ao narcotráfico, deixando dezenas de mortos. 

Embora controversa em alguns aspectos, a política americana parte de um diagnóstico claro: a Venezuela não vive uma democracia funcional, mas sim um regime autoritário sustentado pela repressão e pela manipulação institucional, o que não é sob nenhuma hipótese, justificativa para repressão militar americana ainda mais com o pretexto de combate ao narcotráfico.

A crise venezuelana deixou de ser um debate ideológico há muito tempo. Trata-se de uma questão concreta de democracia, direitos humanos e legalidade internacional. Ao se refugiar no discurso da soberania para evitar condenações mais duras, o Brasil corre o risco de normalizar o autoritarismo e perder credibilidade como liderança regional. O silêncio, nesse contexto, não é neutralidade. É escolha política.

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