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terça-feira, 15 de julho de 2025 | Wesslley Sales

Jair Bolsonaro e outros sete acusados são denunciados pela PGR ao STF por tentativa de golpe de estado para impedir posse do Presidente Lula

De acordo com o relatório sobre Bolsonaro, "houve uma clara confissão de seu intento antidemocrático". Somadas os crimes a pena pode chegar a 40 anos de prisão.

As ofensivas e ameaças do Presidente Donand Trump ao Brasil para tentar salvar seu aliado político não surtiram efeito. A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu oficialmente a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por crimes gravíssimos que, segundo o órgão, ameaçaram diretamente a democracia brasileira. As alegações finais foram entregues ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta semana e apontam que Bolsonaro liderou uma organização criminosa armada que planejou e executou ações para subverter o resultado das eleições de 2022 e impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Entre os crimes listados contra Bolsonaro estão tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, organização criminosa armada, dano qualificado ao patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado. A soma das penas pode ultrapassar 40 anos de prisão, uma condenação que, se concretizada, tornaria o ex-presidente inelegível e o colocaria entre os maiores réus da história republicana do Brasil.

Em depoimento prestado ao STF em junho, Bolsonaro admitiu que discutiu "possibilidades jurídicas" para impedir a posse de Lula, mas alegou que tudo teria sido feito "dentro da Constituição". A PGR, no entanto, interpretou essas declarações como uma confissão de tentativa de ruptura institucional. “A fala de Jair Bolsonaro consiste em clara confissão de seu intento antidemocrático, uma vez que o inconformismo com medidas judiciais jamais poderia servir de fundamento para a cogitação de medidas autoritárias”, diz o parecer do órgão.

O documento vai além, afirmando que Bolsonaro deixou claro, inclusive, que não pretendia respeitar o rito constitucional ao discutir diretamente com os comandantes das Forças Armadas a possibilidade de decretar GLO (Garantia da Lei e da Ordem) como instrumento para reverter o resultado eleitoral. Segundo a PGR, reuniões foram realizadas entre os dias 7 e 14 de dezembro de 2022, no Palácio da Alvorada, com assessores militares, para tratar de uma minuta de decreto golpista.

Essa chamada "minuta do golpe" previa medidas extremas como a prisão de ministros do STF, anulação das eleições, decretação de GLO e a criação de um conselho eleitoral paralelo — uma ruptura clara da ordem constitucional. Apesar de Bolsonaro afirmar que o texto jamais foi assinado, o Ministério Público sustenta que apenas cogitar essas ações já configura crime. “Constitui afronta ao bem jurídico protegido pela legislação penal a ação do governante que, investido legitimamente no poder, tenta, adiante, subvertê-lo pela força”, escreveu o procurador-geral da República.

Além do ex-presidente, a PGR também pediu a condenação de oito aliados próximos — entre eles os ex-ministros Anderson Torres (Justiça), Augusto Heleno (GSI), Braga Netto (Defesa) e Paulo Sérgio Nogueira (também ex-titular da Defesa), além do deputado federal Alexandre Ramagem (ex-diretor da Abin) e o ex-comandante da Marinha, Almir Garnier. Todos são acusados de participação no plano de golpe e na organização criminosa. O ex-ajudante de ordens Mauro Cid também é citado, mas, por ter colaborado com as investigações, pode ter sua pena reduzida em um terço, embora a PGR não recomende perdão judicial completo, devido a omissões consideradas graves em sua delação.

A denúncia reforça ainda que Bolsonaro usou a máquina pública para alimentar desinformação e que se omitiu de forma deliberada diante da escalada de violência política que culminou nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas por extremistas bolsonaristas.

O julgamento dessas denúncias marcará um ponto decisivo para o futuro da democracia brasileira. Caso condenado, Bolsonaro poderá se tornar o primeiro ex-presidente da República a ser sentenciado criminalmente por tentativa de golpe de Estado — um desfecho que pode consolidar o entendimento de que não há espaço para autoritarismo dentro da ordem constitucional brasileira. A defesa do ex-presidente, por sua vez, nega todas as acusações e afirma que Bolsonaro sempre agiu "dentro das quatro linhas da Constituição".

A partir de agora, serão abertos os prazos para as defesas se manifestarem, começando com os advogados de Mauro Cid, que terão 15 dias para pleitear sua absolvição — um direito garantido pelo acordo de colaboração premiada firmado com os investigadores. Em seguida, os demais réus também terão 15 dias para apresentar suas alegações finais. Encerrada essa etapa, o processo será submetido à Primeira Turma do STF, que decidirá se o grupo será absolvido ou condenado pelas acusações que vão de organização criminosa armada à tentativa de golpe de Estado.

Principais acusações e possíveis penalidades

  1. Organização criminosa armada (Lei 12.850/2013):

    • Crime atribuído a Bolsonaro e a ex-aliados como Alexandre Ramagem, Almir Garnier, Anderson Torres, Augusto Heleno, Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira.

    • Pena prevista: de 3 a 8 anos de reclusão, com aumento se houve uso de armas de fogo .

    • No caso de Bolsonaro, a PGR detalha ainda qualificadoras por uso de arma e cargos públicos, elevando a pena para até 17 anos Terra.

  2. Abolição violenta do Estado Democrático de Direito (art. 359-L, Código Penal):

    • Pena de 4 a 8 anos de reclusão.

  3. Tentativa de golpe de Estado (art. 359‑M, CP):

    • Prevê pena de 4 a 12 anos de reclusão.

  4. Dano qualificado ao patrimônio da União (art. 163, parágrafo único, CP):

    • Pena de até 6 anos de reclusão, por depredação ou destruição de bens públicos durante os ataques ao STF e ao Congresso.

  5. Deterioração de patrimônio tombado (Lei 9.605/1998):

    • Com pena de até 3 anos de prisão 

A soma dessas penas pode chegar a impressionantes 43 anos de prisão, conforme estimativa da PGR 

Os demais acusados:

  • Alexandre Ramagem (ex-Abin): organização criminosa armada, tentativa de abolição e golpe.

  • Almir Garnier (ex-Marinha): mesmas acusações, com foco em dano e patrimônio.

  • Anderson Torres (ex-Justiça): participação central na orquestração das ações golpistas.

  • Augusto Heleno (ex-GSI): envolvimento direto nas articulações.

  • Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministros da Defesa): responsabilizados pelos mesmos crimes que Bolsonaro.

  • Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro.


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