Uma gravação atribuída ao presidente da Câmara Municipal de São João da Serra, Raimundo Coimbra (MDB), mantém o Legislativo local no centro de uma grave denúncia de rachadinha — prática em que servidores comissionados devolvem parte do salário a parlamentares. O conteúdo, que circula nas redes sociais, traz um diálogo direto entre o vereador e uma ex-funcionária, com trechos que levantam fortes indícios de um esquema que teria funcionado por anos na Casa. Na última sexta-feira (20) houve confusão e gritaria no plenário, mas foi aberto procedimento para investigar as denúncias contra o parlamentar, como mostrado pelo OPINIÃO E NOTÍCIA (CLIQUE AQUI).
Agora, no áudio, o próprio presidente reconhece que servidores recebiam dois salários e que um deles era repassado ao vereador responsável pela indicação do cargo. Em determinado momento, afirma: “Vou baixar de todo mundo para um salário mínimo e o outro [salário] vai ficar para fazer as coisas da Câmara. Por que não disse que é para devolver para eles? Pois agora ninguém vai devolver mais nada, não”. A ex-funcionária reage dizendo que isso também seria errado. Ele rebate: “Tá investindo na Câmara”.
O ponto mais sensível da conversa é quando o presidente menciona que, se o 13º salário não fosse entregue, haveria consequências: “Mas fique sabendo, em janeiro eu tiro tudinho”. A servidora responde que funcionários são coagidos, ao que ele retruca dizendo que não estaria coagindo, “só dizendo”. Mas, em outro trecho ele mostra que o esquema funcionava já algum tempo: “Eu exonerei o controlador, que era de uma vereadora que o indicava. O controlador não trabalhava e dividia [o salário]. Eu fui contra o sistema. Eu tenho oito vereadores que estão contra mim por eu não aceitar que fossem pagar diárias indevidas, por não concordar com o desperdício de dinheiro público”.
À imprensa Raimundo Coimbra afirma que o áudio foi "manipulado".
A análise do conteúdo revela três aspectos centrais.
Primeiro, há a admissão explícita de que existia um sistema informal de devolução de salários. Ainda que o presidente alegue que a prática ocorria antes de sua gestão e que ele teria se recusado a receber valores, o diálogo sugere conhecimento pleno do mecanismo.
Segundo, mesmo que o dinheiro fosse destinado à Câmara — como ele sustenta ao afirmar que seria para compra de letreiro — isso não elimina a irregularidade. Servidor público não pode ser compelido, direta ou indiretamente, a devolver parte do salário, ainda que sob a justificativa de “investimento institucional”. Salário é verba de natureza alimentar e pertence ao trabalhador.
Terceiro, a ameaça de reduzir salários como forma de reação ao não repasse do 13º reforça o ambiente de pressão. Ainda que ele negue coação e alegue manipulação da gravação, o teor da conversa indica desequilíbrio na relação entre gestor e servidor.
O vereador sustenta que é alvo de perseguição política, afirma ter combatido diárias indevidas e denuncia ataques homofóbicos por parte de colegas. Essas alegações são graves e, se comprovadas, também exigem apuração. No entanto, elas não anulam o conteúdo objetivo do áudio.
O caso revela um problema estrutural recorrente em câmaras municipais de pequeno porte: o uso político de cargos comissionados e a prática da rachadinha como forma de financiar interesses internos. Quando o próprio presidente admite que “antes vocês davam para eles roubarem”, há um reconhecimento de que algo irregular era tratado como rotina.
A crise agora ultrapassa o campo político e entra no jurídico. Se confirmado o esquema, pode haver enquadramento por improbidade administrativa, peculato ou até organização criminosa, a depender da investigação.
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