Quem nunca passou noite acordado com dor de dente não sabe o que é lentidão das horas. E assim foi para muitos piauienses. Exatamente no dia 19 de março deste ano o Conselho Regional de Odontologia do Piauí recomendou o fechamento de todos os consultórios por causa da pandemia do novo coronavírus.
A exceção foram as urgências. Como um Senhor octogenário com abcesso periapical (pus na raiz do dente). Procurada por uma filha do paciente, a dentista Carla Rejane diagnosticou através de imagens e, com todos os protocolos médicos, foi à porta da casa entregar a receita para compra do medicamento de combate à infecção.
Cirurgiã-dentista, Carla Rejane
"Muitos pacientes me procuraram chorando. Um deles disse: eu era atendido a 15 anos por um dentista, mas ele fechou a porta na minha cara. Eu não podia ficar sem fazer nada. Não se pode culpar os profissionais, afinal o medo da covid-19 e os decretos impediram a manutenção dos consultórios abertos", explica.
Apenas no dia 1 de abril Carla Rejane reabriu seu consultório, de forma parcial e obedecendo todos os protocolos. Foi quando percebeu que a pandemia trouxe pacientes com problemas agudos provocados pelo stress, ansiedade e medo. Dentes ficaram necrosados e até crianças precisaram de um tratamento atípico, o canal.
"Pessoas chegavam ansiosas, com medo do coronavírus. O sistema emocional abalado, ansiedade, insegurança em cima. Tudo isso por causa da pandemia. Voluntária ou involuntariamente o sistema emocional leva a travar ou ranger os dentes. É muito grande a força que um dente exerce normalmente sobre o dente antagonista, e em situações de stress, que podem levar ao apertamento e/ou bruxismo, essa força aumenta muito trazendo como consequências, desgastes nos dentes, sensibilidade e até mesmo a necrose pulpar e os abcessos.", completou.
A cirurgiã dentista avalia que o coronavírus foi devastador com a categoria. Muitos dos seus colegas estão fechando as portas e vendendo equipamentos. O momento é de cautela, mas de esperança. Na sua clínica nem todos os seis consultórios retornaram à atividade, mas a determinação é não deixar de atender a quem sofre, garantindo mais qualidade de vida em um momento tão difícil para profissionais e pacientes.
"Estou arrasada em termos financeiros, mas vamos resistir. Com esforço e capacidade reduzida estamos trabalhando. Não fugi à luta. No dia que me formei e fiz o juramento, foi acima de qualquer decreto", completou.
"(...) Tudo farei pela saúde e pela vida daqueles que me forem confiados (...)".
Reportagem: Wesslley Sales
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