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domingo, 16 de novembro de 2025 | Wesslley Sales

Quando o público vira propriedade privada: o péssimo exemplo que expõe a cultura da impunidade em Campo Maior

Flagrante de máquinas da Prefeitura no “Morro do Prefeito João Félix”, em Jatobá, reflete o abuso de poder, imoralidade administrativa e o uso político do patrimônio público em currais eleitorais, neste caso, em uma festa do próprio filho deputado.

A cena registrada em vídeos que circularam neste sábado (15) revela um problema antigo, recorrente e profundamente enraizado na política municipal brasileira: o uso da máquina pública como extensão dos interesses privados de quem ocupa o poder. Em Campo Maior, funcionários e equipamentos da Prefeitura foram flagrados trabalhando em um terreno de propriedade do prefeito Joãozinho Félix (PP), localizado no município vizinho de Jatobá do Piauí. No local, será realizado um evento particular — um torneio de futebol seguido de show — promovido pelo deputado estadual Dogim Félix (PP), filho do próprio prefeito, segundo apurado pelo OPINIÃO E NOTÍCIA.

O flagrante, por si só, já expõe um conflito ético gritante. Um carro-pipa identificado com a marca da Prefeitura de Campo Maior, além de servidores municipais, aparecem preparando o terreno privado onde ocorrerá a festa. Segundo a denúncia, outras máquinas públicas também teriam sido utilizadas durante os preparativos no local conhecido como “Morro do prefeito João Félix”, área pertencente à família, que ainda serve como domicílio eleitoral do parlamentar.

Esse tipo de prática — ainda muito comum em prefeituras do interior — é sustentado por um ambiente de impunidade que se repete a cada ciclo eleitoral. Prefeitos, vereadores, secretários e aliados se veem, com frequência, acima da lei. E seguem operando como se o patrimônio público fosse parte de um acervo pessoal, disponível para atender demandas particulares, favorecer amigos, fortalecer curral eleitoral ou consolidar redes de poder familiar.

Quando analisado sob a ótica jurídica, o caso pode, sim, configurar improbidade administrativa, especialmente por violar princípios básicos da Administração Pública, como a moralidade, a legalidade, a impessoalidade e a eficiência — pilares previstos no artigo 37 da Constituição Federal. Ainda que se alegue ausência de dano material ao erário, o simples desvio de finalidade no uso de bens públicos já é suficiente para caracterizar violação aos princípios, o que, pela legislação, constitui ato de improbidade.

Mas há um ponto ainda mais profundo: mesmo que algum agente tente argumentar que “não houve ilegalidade formal” — tese sempre usada em situações semelhantes — o episódio é, no mínimo, imoral. O uso de máquinas públicas para beneficiar a si próprio ou a familiares representa a deterioração da fronteira entre o público e o privado, uma fronteira que, no interior do Piauí e de tantos outros estados, é frequentemente tratada como borrão.

A naturalização desse tipo de conduta cria um ciclo perigoso. A mensagem transmitida é clara: quem detém o poder pode usá-lo para fins particulares sem temer punição real. Quando não há responsabilização efetiva, o abuso se repete, se espalha e ganha novas camadas de ousadia. É a lógica perversa que sustenta coronelismos locais modernizados, agora alimentados por estruturas administrativas e eleitorais que deveriam servir à coletividade.

O episódio do “Morro do prefeito João Félix” não é apenas um caso isolado; é sintoma de um modelo de gestão distorcido, onde a prefeitura se torna ferramenta de manutenção de poder familiar. E enquanto a sociedade não exigir rigor, transparência e punição proporcional a esses atos, permaneceremos presos a um ciclo em que o prejuízo maior não é apenas financeiro — é moral, institucional e democrático.

O mínimo esperado agora é investigação séria, responsabilização e um recado claro: o que é público é público, o que é privado é privado. E quem não entende essa diferença não tem condições de administrar uma cidade.

O OPINIÃO E NOTÍCIA abre espaço para os citados no artigo confirmarem ou desmentirem a informação que recebemos.

CONFIRA NO VÍDEO ABAIXO O FLAGRANTE:


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