• 4 de junho de 2026
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sábado, 31 de maio de 2025 | Eddy Carlos

O falso discurso da liberdade: Trump mira o Brasil enquanto tenta calar a imprensa dentro de casa

Ao acusar o STF brasileiro de sufocar a liberdade, ele tenta vestir a capa do defensor das empresas americanas como X. Mas os registros de seu próprio governo desmentem essa fachada.

Donald Trump adora posar de defensor global da liberdade de expressão. Prova disso é a recente queda de braço com autoridades brasileiras, em especial ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem Trump e seus aliados acusam de censurar empresas e cidadãos americanos nas redes sociais. Mas por trás dessa retórica inflamada, há um enorme paradoxo: o mesmo Trump que grita contra a “censura” no Brasil é o líder que, dentro dos Estados Unidos, passou anos tentando amordaçar a imprensa crítica e sufocar qualquer voz que ousasse questionar seu governo.

O pano de fundo no Brasil não é o que Trump quer fazer parecer. Embora o país já tenha o Marco Civil da Internet — aprovado há anos como uma espécie de constituição da internet, definindo direitos, deveres e princípios para o ambiente digital —, o STF atualmente analisa a necessidade de regulamentação mais específica para as redes sociais. O argumento central é que faltam regras rígidas que obriguem as plataformas digitais a combater de forma eficaz a disseminação de desinformação, discurso de ódio, ameaças à democracia e campanhas de notícias falsas. Ou seja, longe de ser um movimento de censura, trata-se de uma tentativa de proteger o espaço público democrático das garras da mentira industrializada no "país das liberdades".

Trump, por outro lado, está travando uma guerra narrativa. Ao acusar o STF brasileiro de sufocar a liberdade, ele tenta vestir a capa do defensor das empresas americanas como X (antigo Twitter), Google e Meta. Mas os registros de seu próprio governo desmentem essa fachada.

Não faltam exemplos. Trump retirou credenciais de jornalistas que o confrontavam, como no caso do repórter Jim Acosta, da CNN, banido da Casa Branca após uma pergunta incômoda em 2018 e uma desculpa pífia para a medida. Chamou consistentemente a imprensa de “inimiga do povo”, inflamando apoiadores contra repórteres que cobriam suas coletivas e eventos. Incentivou processos judiciais, assédio público e campanhas digitais para descredibilizar veículos como The New York Times, Washington Post e CNN. Tudo isso não como defesa da verdade, mas como estratégia para minar a crítica e fortalecer uma narrativa única: a dele próprio.

Quando Trump tenta pressionar o Brasil, ele não está interessado em proteger a liberdade dos brasileiros ou mesmo das empresas americanas. Está interessado em criar um palanque político, surfando no discurso de que é um herói da liberdade global, mesmo enquanto dá golpes diretos nos pilares democráticos dentro de casa.

Enquanto isso, as autoridades brasileiras, lideradas pelo STF, enfrentam um desafio complexo: garantir que as redes sociais não se tornem canais livres para destruir reputações, disseminar ódio e fomentar ataques às instituições democráticas. Isso não significa calar opiniões legítimas — significa estabelecer regras para conter abusos que já mostraram ter consequências devastadoras, como os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023 em Brasília.

É importante lembrar que, até aqui, o Brasil não se intimidou com a retórica vinda de Washington. Há um entendimento crescente de que plataformas digitais não podem mais operar sob a lógica de que são apenas intermediárias neutras. Sem regras claras, a balança pesa a favor de quem espalha desinformação em escala industrial — e isso tem preço alto para qualquer democracia.

O que fica evidente nesse embate é a hipocrisia de Trump: o homem que, em nome da liberdade, quer proteger o caos digital lá fora, enquanto tenta silenciar jornalistas dentro de casa. Ele acusa censura onde há tentativa de regulação democrática, mas pratica intimidação onde deveria haver liberdade plena de imprensa.

O caso brasileiro, longe de ser um ataque à liberdade, é um alerta global: estamos entrando numa era em que as democracias precisam urgentemente de novas ferramentas para lidar com o poder das redes, sem abrir mão dos princípios que as sustentam. Quem grita “liberdade” apenas quando convém, como Trump, não está defendendo um ideal — está apenas jogando para sua plateia. E nisso, todos as democracias no mundo perdem.

 O falso discurso da liberdade: Trump mira o Brasil enquanto tenta calar a imprensa dentro de casa  


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