O fechamento de hospitais de campanha no país tem sido motivo de polêmica nos últimos meses e, certamente, será um dos alvos da CPI da Covid no Senado. Paralelo a isso, há críticas quanto a falta de leitos de UTI nos Estados neste momento mais crítico da pandemia, o que teria aumentado o número de mortos e a fila de espera por vagas. É como se o Governo Federal tivesse enviado recursos, mas estes não teriam sido utilizados para ampliar a rede de saúde pública.
Grande parte dos hospitais de campanha foram fechados no início do segundo semestre de 2020. No Piauí, por exemplo, a unidade do Verdão, que custou em torno de R$ 5 milhões (tinha 103 leitos e mais de 200 pessoas trabalhando), foi encerrada em 20 de agosto. No dia 23 de agosto a média móvel de mortos no Piauí era 18% menor em relação aos últimos 14 dias e a taxa de ocupação de UTIs no dia 26 de agosto era de 56,2% e clínicos 52,3%, segundo a Secretaria de Saúde.
Construído com recursos do Ministério da Saúde o hospital de campanha de Águas Lindas de Goiás-GO, que teve o Presidente Jair Bolsonaro na inauguração também foi desativado. A unidade, que custou pouco mais de R$ 10 milhões, funcionou por quatro meses até encerrar atividades em outubro de 2020 pela ociosidade em seus 200 leitos.
Os dois hospitais de campanha foram fechados sob alegação de que havia naquele momento queda no número de mortos e de infecções por covid, consequentemente, reduzindo a pressão sobre a taxa de ocupação de leitos. Manter estas unidades abertas seria um gasto desnecessário para o momento. Em outubro de 2020 o Presidente Jair Bolsonaro chegou a dizer que a pandemia estaria perto do fim. Apesar disso, pesquisadores nacionais e a Organização Mundial da Saúde já alertavam sobre a possibilidade de uma segunda onda da pandemia ainda mais forte no Brasil, confirmada em janeiro com o colapso no Amazonas.
UTIs
Com o fechamento do hospital de campanha no Piauí, segundo a SESAPI, a estratégia foi aumentar o número de leitos nas chamadas Regiões de Saúde. Em todo o Estado as Unidades de Tratamento Intensivo adulto, exclusivas para covid, foram ampliadas desde o início da pandemia. No final de 2019 o Governo do Estado mantinha 87 unidades e agora, até abril deste ano, chegou a 293, um aumento de 260%. Só na capital foram criadas 110 novas Unidades de Terapia Intensiva, crescimento de 350%. (Ampliação LEITOS_UTI_ COVID Adulto - Rede Hospitalar Estadual - 2019-2021.xls)
Na contramão da ampliação do número de leitos no Piauí o Governo Federal, através do Ministério da Saúde, iniciou o desmonte dos leitos de UTI covid em todo o país. Em dezembro de 2020 o financiamento da União mantinha 12.003 Unidades de Tratamento Intensivo para covid. No dia 10 de março deste ano eram apenas 3.372 leitos, ou seja, no pior momento da pandemia o corte foi de 72%.
De acordo com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde-CONASS, no Piauí houve redução significativa em UTIs covid financiadas pelo Governo Federal. Desde o início da pandemia foram habilitados 300 leitos, caindo depois para 221 e no final de 2020 restaram apenas 61 Unidades de Tratamento Intensivo, queda de 71%.
Em março, já não havia um único leito financiado com recursos da União e, por isso, uma decisão do Supremo Tribunal Federal, através da Ministra Rosa Weber, determinou ao Ministério da Saúde a habilitação de 278 novos leitos de UTI no Estado.
FALTA DE MÉDICOS
Ainda em junho do ano passado, a Secretaria de Saúde e a Prefeitura de Teresina solicitaram ao Ministério da Saúde, através do programa "O Brasil Conta Comigo”, o envio de 359 profissionais para trabalhar nas UTIs. Havia, naquele momento, dificuldade para formar plantonistas. Sobre disponibilidade de intensivistas no Estado o coordenador do Centro de Operações de Emergência (COE), infectologista José Noronha, declarou que faltavam médicos especialistas para os plantões.
Já com o avanço da pandemia no Piauí o Governador do Estado disse que não haveria como ampliar indefinidamente leitos de UTI para atender a demanda, apontando a falta de profissionais intensivistas como um dos problemas. A informação é reforçada pela Sociedade de Terapia Intensiva do Piauí em nota divulgada no dia 21 de março deste ano.
“Infelizmente, não temos mais profissionais e não temos como formar intensivistas de forma emergencial. Também não podemos esperar vacinação eficaz em pouco tempo. Nós, profissionais de saúde, estamos fazendo a nossa parte. A mortalidade destes casos em leitos emergenciais é estarrecedora e chega a 80%. Somente o acréscimo de leitos, equipamentos e de insumos não serão capazes de resolver o problema e evitar mortes, se não houver a contratação de equipes capacitadas para o atendimento desses pacientes graves”, diz a nota assinada pelo presidente e vice-presidente da SOTIPI, Dr. Itapuan Damásio de Sousa e Dr. Igor Denizarde Bacelar Marques, respectivamente.
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