A cena em Luzilândia ajuda a decifrar a política piauiense de hoje. A prefeita Fernanda Marques e a deputada estadual Janaína Marques, ambas do PT, declararam apoio ao senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas e um dos principais adversários de Lula e de Rafael Fonteles (PT) no estado. Ao mesmo tempo, o próprio Governador do Piauí já conta com o apoio político de pelo menos 27 prefeitos filiados ao PP, partido do senador candidato a reeleição.
À primeira vista, parece uma avalanche de “infidelidade partidária”. Olhando mais de perto, é o funcionamento normal de um sistema em que o que vale menos é a sigla e o que conta mais são as lideranças, o acesso aos recursos e a capacidade de entregar obras e serviços aos municípios.
No interior do Piauí, o mapa do poder não se organiza, prioritariamente, por partidos, mas por redes locais de prefeitos, ex-prefeitos, vereadores e famílias políticas. É nesse tabuleiro que Rafael e Ciro atuam. O governador, do PT, comanda a máquina estadual: orçamento, convênios, obras de infraestrutura, programas de saúde, educação, assistência. O senador, do PP, comanda um partido robusto em Brasília, com presença em ministérios e acesso privilegiado à liberação de emendas e recursos federais. Para o prefeito de uma cidade média, o cálculo é pragmático: com quem eu consigo resolver problemas concretos da cidade — estrada, hospital, escola, máquina, asfalto — e não apenas marcar posição ideológica?
Por isso, não é contraditório ver prefeitos do PP alinhados com Rafael. No papel, o Progressistas de Ciro faz oposição ao governador e ao presidente Lula. Na prática, uma série de lideranças experimentadas do partido — Francisco Emanuel, em Parnaíba, Joãozinho Félix, em Campo Maior; Ronaldo Barbosa, em Elesbão Veloso; Júnior Carvalho, em Demerval Lobão; Miguel Leão, em Parnaguá, entre outros — governam de mãos dadas com o Palácio de Karnak, sob o argumento de que o governo estadual tem sido parceiro em obras e políticas públicas. Eles não deixam o PP, mas reconhecem, na figura do governador, um aliado indispensável para tocar a agenda local.
O contrário também acontece. Parte de prefeitos e lideranças de partidos da base governista enxergam em Ciro um interlocutor eficaz em Brasília, capaz de abrir portas e destravar recursos. O caso de Luzilândia não é isolado. A aproximação de gestores municipalistas com o senador indica que a relação pessoal e a trajetória de parceria pesam tanto quanto a composição das chapas estaduais. Prefeito, em regra, não quer brigar com quem pode ajudá-lo a resolver problemas; se puder somar, ele soma.
Esse ambiente, inevitavelmente, tensiona a lógica partidária. Quando Fernanda e Janaína, ambas do PT, declararam apoio a Ciro, o presidente estadual do partido, Fábio Novo, reagiu defendendo punições e o reforço da disciplina interna. Havia, aí, uma tentativa de restabelecer alguma coerência: se o PT lidera a chapa estadual, como admitir que quadros importantes da sigla façam campanha aberta para o principal antagonista ao Senado?
Mas o próprio campo governista sabe que a realidade nas bases é menos linear. Como lembrou o deputado federal Flávio Nogueira, não são apenas petistas que apoiam Ciro; também há quadros de partidos formalmente aliados a Rafael que não seguem, de forma integral, a chapa oficial ao Senado. E, no outro lado, não faltam exemplos de prefeitos de partidos de oposição que fazem campanha para o governador. Quando se tenta aplicar a cartilha da fidelidade absoluta, esbarra-se em um fato simples: o sistema, tal como está estruturado, não funciona assim.
No Piauí, como em boa parte do Brasil, as eleições majoritárias costumam ser decididas menos pela militância de partido e mais pelo “time” de prefeitos e lideranças municipais que cada candidatura consegue reunir. Em 2026, esse fator tende a ser ainda mais determinante. Num estado em que a maioria do eleitorado vive em cidades médias e pequenas, é o prefeito que faz a ponte entre o eleitor e o nome ao governo ou ao Senado. Ele é quem organiza caravanas, monta palanque, negocia apoios de vereadores, mobiliza o funcionalismo, garante transporte e presença em eventos. Se esse prefeito é do PP, mas está com o governador do PT, ou se é do PT mas pede voto para o senador do PP, o eleitor pode até registrar a contradição, mas, na prática, acompanha o líder local.
Rafael e Ciro se movimentam com clareza dentro dessa lógica. O governador tem percorrido o estado inaugurando obras, assinando convênios, reforçando programas em parceria com as prefeituras e colecionando fotos com prefeitos — inclusive progressistas. Cada adesão é apresentada menos como “traição ao PP” e mais como reconhecimento ao “trabalho do governo” em parceria com os municípios. Já Ciro mantém ativo seu capital de articulador em Brasília, oferecendo a prefeitos a perspectiva de acesso a ministérios e recursos federais, mesmo em um ambiente nacional adverso ao seu campo político. Prefeito, no fim, ouve os dois, mede o que cada um entrega e monta um palanque que maximize ganhos para sua cidade.
A consequência é uma espécie de “dobradinha cruzada” que se torna cada vez mais comum: o mesmo grupo local apoia Rafael para governador e Ciro para senador; ou fecha com Ciro em Brasília, mas se aproxima da estrutura estadual do PT para garantir obras e serviços. Aos olhos de uma lógica partidária rígida, isso seria incoerente. Aos olhos de quem administra um município com orçamento apertado e demandas crescentes, é apenas racionalidade política.
Esse quadro tem efeitos ambíguos. De um lado, fragiliza ainda mais a força programática dos partidos, que viram “casca institucional” para lideranças que operam com grande autonomia nas pontas. De outro, fortalece figuras como Rafael Fonteles e Ciro Nogueira, que passam a ser vistos como centros de gravidade em torno dos quais se organizam redes de prefeitos e lideranças locais, acima da linha partidária formal.
O “troca-troca” de apoios, portanto, diz menos sobre crise de fidelidade e mais sobre a natureza do jogo político no Piauí: um sistema em que os partidos estruturam a disputa no papel, mas são os municípios, por meio de suas lideranças, que definem, na prática, o rumo das eleições. Em 2026, a disputa não será apenas entre PT e PP, governo e oposição, esquerda e direita. Será, sobretudo, uma disputa entre duas grandes redes de poder territorial — a de Rafael e a de Ciro — para ver quem consegue convencer mais prefeitos de que, ao subir no seu palanque, não é o partido que ganha; é a cidade que governa.
VEJA OS 27 PROVÁVEIS PREFEITOS DO PP QUE APOIAM A REELEIÇÃO DE RAFAEL FONTELES:
- Afonso Sobreira – Novo Oriente
- Alberto – Cajazeiras
- Binha – Jardim do Mulato
- Clayton Barros – Paquetá
- Djalma Policarpo – Monsenhor Hipólito
- Edilberto Rodrigues – Santa Cruz dos Milagres
- Filho – São Francisco de Assis do Piauí
- Francisco Emanuel – Parnaíba
- Heli Marques – Nova Santa Rita
- Jean Carlos – Campo Alegre do Fidalgo
- João Paulo – Júlio Borges
- Joãozinho Félix – Campo Maior
- Josué – Morro Cabeça no Tempo
- Júnior Carvalho – Demerval Lobão
- Manin do Povo – São Pedro do Piauí
- Marcelo Costa – Valença do Piauí
- Marina Brito – Ilha Grande
- Miguelão – Parnaguá
- Milton Gomes – São José do Divino
- Renato Pio – São Luís do Piauí
- Ronaldo Barbosa – Elesbão Veloso
- Sávio Moura – Lagoa do Sítio
- Tiel – Tanque do Piauí
- Toinho – Olho D’Água do Piauí
- Zé Filho – Cabeceiras
- Joseilson Pio – São Félix do Piauí
- Magnum – Caxingó
Dobradinha cruzada: prefeitos do PP e do PT fazem palanque duplo para Rafael Fonteles e Ciro Nogueira no Piauí sem traições
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