• 4 de junho de 2026
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 | Eddy Carlos

“Conselho da Paz” de Trump tem um nome que não combina com a prática e propõe agir como um “cowboy global”

Um órgão criado sob o discurso da pacificação global expõe contradições profundas do poder, do direito internacional e da lógica de força com países de regimes autoritários ou semiautoritários.

O batismo do chamado “Conselho da Paz”, anunciado por Donald Trump em Davos, carrega uma ironia difícil de ignorar. Ao se autoproclamar uma instância global de monitoramento da paz e reconstrução de territórios em conflito, o órgão nasce cercado de críticas, recusas relevantes e, sobretudo, incoerências estruturais que colocam em xeque tanto sua legitimidade quanto sua real finalidade.

Não é casual que países com tradição diplomática e forte compromisso com o multilateralismo — como Espanha, França, Suécia, Noruega e Eslovênia — tenham recusado o convite. Ao justificar a negativa, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, foi direto: participar do conselho seria incoerente com o respeito ao direito internacional, à ONU e aos mecanismos multilaterais que, com todos os seus defeitos, ainda representam o único espaço legítimo de mediação global. O Brasil também foi convidado, mas até agora o Presidente Lula não deu resposta a Donald Trump, mas acredita-se que deverá recusar.

A crítica central não está apenas no conselho em si, mas no que ele simboliza: uma tentativa explícita de esvaziar a Organização das Nações Unidas e substituí-la por um arranjo sob controle direto de um único país — e, mais especificamente, de um único líder. O próprio Trump deixou isso claro ao afirmar que o conselho terá autorização para “fazer praticamente tudo o que quisermos”, com ele ocupando a presidência vitalícia e detendo poder absoluto de veto. Trata-se menos de um fórum de paz e mais de um instrumento de poder personalizado.

O paradoxo se aprofunda quando se observa a lista de países convidados e aceitos. Entre eles estão regimes autoritários ou semiautoritários que mantêm uma “paz interna” sustentada por coerção, repressão política, censura e ausência de liberdades civis. Nesses contextos, a estabilidade não é resultado de consenso social, mas do silenciamento sistemático da população. Chamar isso de paz é, no mínimo, uma distorção conceitual conveniente.

Ainda mais contraditório é o convite — ou a expectativa de adesão — da Rússia. O país está em guerra aberta contra a Ucrânia há quase quatro anos, após uma invasão baseada em justificativas amplamente contestadas pela comunidade internacional e sem respaldo no direito internacional. A presença russa em um “Conselho da Paz” escancara o vazio semântico do nome: não se trata de promover a paz, mas de acomodar interesses estratégicos, mesmo quando eles passam pela violação explícita da soberania de outros Estados.

Os Estados Unidos, por sua vez, tampouco ocupam uma posição moralmente neutra nesse cenário. O próprio governo americano tem recorrido reiteradamente à ameaça ou ao uso da força fora de suas fronteiras, seja por intervenções diretas, sanções unilaterais ou discursos que flertam com a invasão de países como a Venezuela. Ao agir assim, Washington consolida um modelo distorcido de direito internacional, no qual regras existem para os outros, enquanto a superpotência atua como um “cowboy global”, usando poder militar e econômico para garantir influência e acesso a recursos naturais estratégicos.

O plano apresentado para Gaza reforça essa lógica. A proposta de uma “Nova Gaza”, com arranha-céus e administração supervisionada por um conselho externo, ignora a autodeterminação do povo palestino e exclui, de forma simbólica e prática, a própria Autoridade Palestina. A reconstrução, nesse modelo, não é um processo político e social conduzido pelos habitantes do território, mas um projeto tecnocrático imposto de cima para baixo, sob vigilância internacional seletiva.

Ao final, o “Conselho da Paz” parece menos comprometido com a construção de consensos e mais alinhado à reorganização do poder global sob uma lógica unilateral. A paz, nesse discurso, deixa de ser um valor coletivo e passa a ser um produto gerenciado por quem detém força, veto e capital.

Talvez por isso o conselho já nasça esvaziado. Não por falta de convites, mas por excesso de contradições. Em um mundo marcado por guerras prolongadas, crises humanitárias e disputas geopolíticas cada vez mais complexas, a paz dificilmente será alcançada por decretos unilaterais — sobretudo quando aqueles que se colocam como árbitros são, ao mesmo tempo, parte central do problema.

 “Conselho da Paz” de Trump tem um nome que não combina com a prática e propõe agir como um “cowboy global”  


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