Dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o Piauí possui em torno de 41% dos idosos (a partir dos 60 anos) ainda analfabetos. Este é um fato que leva o Estado para a segunda maior taxa do país.
Porém, é falso dizer que o analfabetismo no Piauí e, claro, no Nordeste, é fruto de administrações petistas, como afirmou o Presidente Jair Bolsonaro (PL) ao “analisar” sua derrota para Lula (PT) na região. Ao contrário, esta é uma herança da ditadura militar (1964-1985) e do chamado coronelismo (final do século XIX e início do XX) vigente no país na transição da monarquia para a política governamental.
“O Coronelismo representou um momento da história do Brasil em que os coronéis tinham poder sobre todos os aspectos sociais das regiões que habitavam, especialmente no interior do Nordeste. O coronelismo foi protagonizado pelos latifundiários, militares e fazendeiros. Para garantir a manutenção desse modelo político, era necessário garantir votos. Dessa forma, o Estado se comprometia a favorecer os coronéis com poder em suas regiões e em troca, os coronéis conseguiam os votos da população. Foi assim que teve início um estilo de manipulação que ficou conhecido como “voto de cabresto”, explica artigo do educamaisbrasil.com.br.
Para esse período da história brasileira, principalmente nordestina, uma característica imprescindível da população para manter o coronelismo era ser analfabeta. Quem corrobora com esse pensamento é o professor e intelectual piauiense, Cineas Santos. Com sua própria história de vida ilustra esta dura realidade que, para ele, perdura como uma “herança maldita”.
“Quando nasci no sertão de Caracol-PI (1948) não havia escola, professor, livros e nem água. Eu só tive acesso a escola por minha mãe, semianalfabeta, que tinha verdadeira obsessão por educação. Saiu do sertão e foi para São Raimundo Nonato (por volta de 1950) onde não tínhamos nada. Não consigo descrever o sofrimento que passamos. Foi uma vitória dela”, relembra com exclusividade para o OPINIÃO E NOTÍCIA.
Com o fim da ditadura militar em 1985 o Brasil entra na redemocratização. Porém, é onde se observa uma outra face do analfabetismo. Se no Piauí a faixa etária de 60 anos concentra a maior parte dos analfabetos, logo ela está diretamente inserida neste contexto histórico. Foi nesta fase que o MOBRAL foi criado em 1970, para escolarizar, mas fracassou.
“Até então, duas décadas antes, a reflexão e o debate em torno do analfabetismo no país convergiam para a consolidação de um novo modelo pedagógico. Nesse modelo, o analfabetismo era interpretado como efeito de uma situação de pobreza gerada por uma estrutura social não igualitária e, sendo assim, a educação e a alfabetização deveriam partir de um exame crítico da realidade existencial dos educandos, da identificação das origens de seus problemas e das possibilidades de superá-los. Os programas de alfabetização orientados neste sentido foram interrompidos pelo golpe militar, porque eram considerados uma ameaça ao regime, e substituídos pelo Mobral. Dessa forma, muitos dos procedimentos adotados no início da década de 60 foram reproduzidos mas esvaziados de todo senso crítico e problematizador”, diz trecho do artigo publicado site Educabrasil (MENEZES, Ebenezer Takuno de. Verbete Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Dicionário Interativo da Educação Brasileira - EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2001. Disponível em <https://www.educabrasil.com.br/mobral-movimento-brasileiro-de-alfabetizacao/>.
Para o professor Cineas Santos muitas cenas que ele viveu na década de 50 se repetem atualmente na sua Caracol e em muitas outras cidades. É uma conjuntura estrutural que vai além de um governante ou outro.
“Hoje, existe escola e até ônibus, mas criança não é motivada e é obrigada a trabalhar para ajudar a família, muitas vezes na roça. Nunca houve um projeto de Estado com objetivo de zerar ou pelo menos minimizar o analfabetismo no Nordeste. Isso se perpetua. O filho do analfabeto tem mais possibilidade de ser analfabeto. Isso foi acentuado na ditadura e no coronelismo, mas permanece ainda hoje. O filho de um analfabeto não está condenado ao analfabetismo, mas encontrará dificuldades maiores para estudar porque a escola fica longe ou não são estimulados. É um nó complicado que só seria desatado com um projeto de Estado. Mas, isso não existe”, lamenta.

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