A política partidária é retroalimentada de várias formas, como nos movimentos sociais, sindicatos e associações, movimentos estudantis. As universidades são nascedouros de lideranças importantes no Piauí e no Brasil, algo muito importante para a democracia. O grande problema é quando se transforma entidade acadêmica em reduto político-ideológico, algo que pode colocar em risco a autonomia e todo um processo eleitoral interno para escolha de um reitor.
É o que está se desenhando na Universidade Federal do Piauí, onde foi deflagrada uma tentativa de resistência à nomeação de Gildásio Fernandes para Reitor da insituição pelos próximos quatro anos. O OPINIÃO E NOTÍCIA teve acesso a áudios que revelam os bastidores de uma ação articulada que tenta incitar uma minoria de alunos contra a nova gestão da UFPI. Há trechos onde há clara tentativa de aliciar os discentes.
"Os meninos estão ansiossismos para começar. Para fazer a ação amanhã. Eles já começaram nas redes sociais. Eu disse para eles: comecem a fazer as ações que a gente vai atrás de vocês", é o que diz o áudio atribuído à Pró-reitora de Graduação, Romina Paradizo, que é, segundo fontes do movimento, militante do mais novo partido do país, o Unidade Popular-UP, que teve Pedro Laurentino como candidato a Prefeito de Teresina.
Vale ressaltar que a professora, segundo fontes na UFPI, se colocou em oposição ao Reitor Gildásio Fernandes em diversas situações. Exemplo disso foi quando a pró-reitora rejeitou a proposta dele para não prejudicar cerca de 30 mil alunos, que consistia em treinar os professores do ensino presencial para dar aulas através do Centro de Educação a Distância. Apesar disso, este foi o único setor, dirigido pelo novo reitor, que não parou na pandemia.
Há também um outro áudio, desta vez atribuído ao Professor Edvar Alencar Castelo Branco, que já foi vice-Reitor e tem influência na Associação dos Docentes da Universidade Federal do Piauí. A diretoria da ADUFPI, por sua vez, tem ligações políticas com o PCdoB. Na gravação há dicas de como o movimento deve acontecer fora das redes sociais.
"É fundamental que nos organizemos em torno de um único grupo. Nós vamos comunicar para toda a sociedade, incluindo o Gildásio (novo Reitor), ouvirão. Nese momento o importante é que a gente exclame a nossa reação à intervenção na UFPI. É urgente, não uma reunião da diretoria da Adufpi, mas uma reunião ampliada inclusive convocando, camarada Dalton, setores do Diretorio Central dos Estudantes, ou se houve algum problema de ordem política, convocar UJS (União da Juventude Socialista), setores do movimento estudantil para esta reunião para concatenar uma reação. É preciso que amanhã Picos exploda na mesma hora que Teresina explodiu...".
É de se estranhar essa condução que envolve até o Diretório Central dos Estudantes porque vai na contra mão da vontade do alunado, que votou em massa no Reitor eleito, Gildásio Fernandes. Estaria sendo o DCE manobrado por interesses políticos?
DENÚNCIAS
A nomeação de Gildásio Fernandes aconteceu nesta quinta-feira (19), após publicação no Diário Oficial da União. Ele foi uma escolha técnica do Ministério da Educação (MEC) e sugerida ao Presidente Jair Bolsonaro depois de analisar a lista tríplice composta pela professora Nadir Nogueira e o professor André Macedo (candidato do ex-reitor Arimatéia Dantas Lopes).
Dos três candidatos, o escolhido protagonizou mais experiência acadêmica e contribuição junto à instituição. Durante as últimas três semanas pessoas ligadas aos candidatos acompanham em Brasília os acontecimentos. Tão logo saiu a nomeação do professo Gildásio iniciou-se uma ação estranha na UFPI.
"Fomos informados que os pró-reitores formataram computadores, trocaram HDs. De ontem para hoje foram vários atos de improbidade adminsitrativa. Não sabemos o que vamos encontrar na UFPI, mas sabemos que conseguimos quebrar um esquema que durava alguns anos", afirma uma das fontes que prefere não ser identificada.
A ELEIÇÃO
O processo eleitoral na Universidade Federal do Piauí é um tanto confuso. Não adianta ser o mais votado, como foi o caso do professor Gildasio porque a definição é pela chamada média ponderada, onde voto dos professores tem peso muito superior a dos alunos e passa por um conselho universitário em grande parte composto por membros nomeados pela própria gestão superior.
Assim, Gildásio Fernandes foi o mais votado com 4.987 votos e média ponderada de 21,14%; Nadir Nogueira ficou em segundo com 4.168 votos e média ponderada de 27,23% e por último André Macêdo, com 3.864 votos, mas com média ponderada superior aos dois oponentes, 45,64% e, desta forma, considerado o vencedor, atendendo a conveniência da gestão que tentava elegê-lo.
Porém, os candidatos encabeçaram uma lista triplice encaminhada ao Presidente da República para que ele definisse quem seria o próximo Reitor da UFPI. De agosto até aqui deputados federais e senadores foram mobilizados para fazer gestão junto a Jair Bolsonaro.
Com 40 anos de UFPI, onde só não havia ocupado cargo de Reitor e vice-Reitor, Gildásio Fernandes foi o escolhido por critérios técnicos. Pelo menos é o que se observa ao comparar com André Macêdo, que tem apenas oito anos na instituição, onde foi diretor do Núcleo de Tecnologia da Informação (2013-2015) e Pró-Reitor de Planejamento e Orçamento (2015-2020), cargos sempre nomeados, nenhum eleito por seus pares ou discentes. Vale lembrar que a nomeação do Reitor é de livre indicação do Presidente Jair Bolsonaro, independente da votação obtida na eleição interna. Ainda assim, o novo Reitor obteve maioria quantitativa dos votos.
Desta forma, mesmo com todos os critérios técnicos de Gildásio Fernandes, o movimento que hoje se contrapõe parece ser mais de caráter partidário. Com tantos problemas provocados pelo coronavirus, paralisando cursos, prejudicando alunos e professores, uma pandemia político-ideológica em desfavor da democracia parece não ser a melhor opção para o futuro da UFPI.
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