A reação de apoiadores da esquerda à Rede Globo, após a publicação de uma informação na coluna da jornalista Malu Gaspar, em O Globo, revela mais um capítulo da relação ambígua entre política, imprensa e polarização no Brasil. A nota jornalística apontou que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes manteve contatos com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar de temas relacionados à venda do Banco Master ao BRB — um assunto sensível por envolver autoridades de altíssimo nível e uma operação financeira relevante.
Diante da repercussão, Alexandre de Moraes divulgou nota oficial na qual nega qualquer irregularidade. Segundo o ministro, em nenhuma das reuniões ou contatos houve tratamento de assunto relacionado à aquisição do Banco Master pelo BRB, tampouco qualquer tipo de pressão sobre o Banco Central. Moraes esclareceu ainda que realizou apenas duas reuniões em seu gabinete com o presidente da autarquia, ambas destinadas a discutir os efeitos da Lei Magnitsky, aplicada pelo governo dos Estados Unidos contra ele. O ministro também foi categórico ao afirmar que o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou, em qualquer hipótese, na operação de aquisição BRB–Master perante o Banco Central.
A nota, do ponto de vista institucional, cumpre o papel de esclarecimento. Ainda assim, o episódio expôs um fenômeno recorrente no debate público brasileiro: a seletividade na crítica à imprensa. Setores da esquerda passaram a acusar o Grupo Globo de repetir práticas do passado, resgatando a cobertura da Operação Lava Jato e alegando que o conglomerado teria apoiado, à época, as narrativas da chamada “República de Curitiba”, que culminaram na prisão de Luiz Inácio Lula da Silva — posteriormente anulada por vícios processuais reconhecidos pelo próprio STF.
O incômodo, porém, parece menos relacionado ao método jornalístico e mais ao alvo da notícia. Durante anos, parte desse mesmo campo político celebrou reportagens que atingiam adversários. Agora, diante de uma apuração que envolve uma figura central do atual arranjo institucional, o jornalismo passa a ser tratado como suspeito. A crítica surge não quando há falha comprovada, mas quando o foco se desloca para “os nossos”.
A contradição não é exclusividade da esquerda. À direita, o ataque à Globo é antigo e permanente. Lideranças e influenciadores conservadores acusam a emissora de favorecer Lula, o PT e pautas progressistas, rotulando o grupo como “globolixo”. Para esse espectro, a imprensa só é confiável quando denuncia governos de esquerda; quando noticia fatos que envolvem a direita, passa a ser vista como militante. A lógica é a mesma, apenas invertida.
Esse ambiente revela um problema estrutural: a dificuldade de aceitar o papel da imprensa como fiscal do poder, independentemente de ideologia. O jornalismo profissional existe para tornar públicos fatos relevantes, especialmente quando envolvem autoridades e instituições. Quando um ministro do STF mantém interlocução com o presidente do Banco Central, o simples registro desse contato é, por si só, um dado de interesse público — ainda que, como afirmou Moraes, não haja ilegalidade, pressão ou conflito de interesses.
As redes sociais potencializam esse cenário ao transformar qualquer reportagem em munição política. O debate deixa de ser sobre fatos, contexto ou limites institucionais e passa a girar em torno da lealdade ideológica. Assim, a crítica à imprensa torna-se utilitária: válida apenas quando serve para proteger aliados e deslegitimar adversários.
Isso não significa que o jornalismo esteja acima de questionamentos. A revisão crítica da cobertura da Lava Jato demonstra que erros existem e precisam ser reconhecidos. Mas há uma diferença fundamental entre crítica consistente e deslegitimação oportunista. Quando toda apuração incômoda é tratada como perseguição, o resultado não é justiça informacional, mas empobrecimento do debate público.
O episódio envolvendo Moraes, a nota de esclarecimento e a reação nas redes sociais escancaram esse paradoxo. Em um país marcado pela polarização, a imprensa passou a ser julgada menos pela qualidade da informação e mais por quem ela contraria. Enquanto essa lógica prevalecer, o jornalismo continuará sob ataque — não por falhar, mas por cumprir sua função essencial em uma democracia: informar, mesmo quando isso desagrada.
A imprensa sob ataque permanente na polarização política brasileira
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