A Prefeitura de Teresina decidiu usar a recuperação das contas públicas para abrir uma frente robusta de obras em infraestrutura viária, apostando em investimento com recursos próprios e sem recorrer a novos empréstimos. Após um processo de reorganização fiscal ao longo de 2025, o município elevou sua nota de Capacidade de Pagamento (CAPAG), atribuída pelo Tesouro Nacional, para “B” – um patamar que sinaliza melhora consistente da saúde fiscal e maior credibilidade para planejar investimentos. É nesse contexto que surge o plano de R$ 41,5 milhões em asfaltamento e recapeamento de vias, coordenado pela Empresa Teresinense de Desenvolvimento Urbano (Eturb) em parceria com as secretarias de Planejamento e Finanças.
O pacote anunciado prevê R$ 41.548.380,19 em obras de pavimentação e recapeamento espalhadas por todas as regiões da capital, mas com foco mais intenso nas áreas com maior demanda reprimida. A zona Norte será a principal beneficiada, com R$ 14,59 milhões previstos, reflexo de uma estratégia de atacar gargalos históricos de mobilidade em bairros populosos. Em seguida, vêm as zonas Leste (R$ 9,08 milhões) e Sul (R$ 9,01 milhões). As áreas Centro e Sudeste também entram no mapa de intervenções, com R$ 4,47 milhões e R$ 4,38 milhões, respectivamente. No total, o plano contempla 159 trechos de vias, somando 59,61 quilômetros de extensão e mais de 550 mil metros quadrados de área pavimentada, com meta de conclusão até o fim de 2026.
As obras não foram pensadas de forma dispersa. A Eturb organizou o cronograma por etapas, priorizando corredores estratégicos e trechos com maior impacto no fluxo de veículos e no transporte coletivo. No Centro da cidade, entram na lista avenidas como Joaquim Ribeiro e José dos Santos e Silva, além da rua Valdivino Tito, que funcionam como eixos de ligação entre bairros e a região comercial. Na zona Leste, o pacote inclui intervenções nas ruas Alaíde Marques e jornalista Helder Feitosa, no Ininga, e na Avenida Maria Antonieta Burlamaqui, no Santa Lia – áreas com grande concentração de serviços e circulação de estudantes e trabalhadores.
Na zona Norte, o carro-chefe é a Avenida Centenário, dividida em três trechos, além da rua jornalista Climério Lima, no bairro Aroeiras. Essas vias funcionam como corredores que conectam bairros residenciais a áreas de comércio e serviços, e costumam sofrer com desgaste de pavimento e necessidade constante de manutenção. Na zona Sul, o destaque é a chamada rota de ônibus Irmã Dulce, no bairro Angelim, importante para a circulação do transporte coletivo. Já na zona Sudeste, o plano prevê recuperação de ruas no bairro Novo Horizonte, como Suriname e Adão Medeiros Soares, que atendem a um público que, historicamente, convive com ruas danificadas e dificuldade de acesso.
Parte desse pacote já saiu do papel, o que permite medir os primeiros efeitos. No Centro, a prefeitura executou serviços no acesso à Ponte Metálica e nas ruas Anísio de Abreu e Magalhães Filho, pontos cruciais para o trânsito diário entre margens do rio e o coração da cidade. Na zona Sudeste, houve atuação no bairro Colorado, com obras na Avenida Totó Ribeiro e na rua Diácono Tio Nonato. Na zona Sul, o bairro Bela Vista recebeu pavimentação em várias ruas e quadras, ajudando a reduzir poeira no período seco e lama no período chuvoso. Na zona Leste, bairros como Satélite e Vale Quem Tem também já foram beneficiados com melhorias, o que indica que o plano não está restrito ao anúncio, mas em fase de execução progressiva.
O diretor-presidente da Eturb, Vicente Moreira Filho, tem insistido em um ponto que conecta o canteiro de obras à contabilidade da prefeitura: o uso de recursos próprios. Segundo ele, o plano é “fruto de planejamento e compromisso da Prefeitura de Teresina”, sem necessidade de novos empréstimos, o que, na sua visão, demonstra responsabilidade financeira da gestão do prefeito Silvio Mendes. Essa narrativa dialoga diretamente com o outro eixo da estratégia municipal: a recomposição da situação fiscal que levou à nota CAPAG “B” pelo Tesouro Nacional.
Na prática, essa nota é um selo técnico que indica qual é a capacidade de o município honrar seus compromissos e, portanto, sua aptidão para contrair financiamentos com garantia da União. Teresina, porém, adotou uma rota distinta: depois de reorganizar as finanças, optou por não contratar novos empréstimos em 2025 e 2026, priorizando investimentos bancados por receitas próprias. O secretário municipal de Finanças, Edgar Carneiro Machado Filho, explica que a melhoria da CAPAG é resultado de um conjunto de ajustes: controle rigoroso de despesas, aumento da eficiência na arrecadação, revisão de gastos e foco na recomposição do equilíbrio entre receitas e despesas.
Os dados reforçam essa leitura. O município conquistou nota A no índice de endividamento, com índice de 32,87%, o que indica um nível de dívida considerado saudável em relação à capacidade de pagamento. Na poupança corrente – indicador que mede a diferença entre receitas correntes e despesas correntes, e portanto a capacidade de gerar caixa para investimentos –, Teresina obteve nota B, com 93,06%, sinalizando um avanço importante. Em linguagem simples: a cidade passou a gastar menos do que arrecada em despesas do dia a dia, abrindo margem para investir sem recorrer a endividamento novo.
Essa recuperação não foi obra de uma secretaria isolada. Na SEMF, o processo contou com o trabalho do setor contábil, coordenado por Agnys Melissa Lima Rocha, e de toda a equipe técnica responsável por fechar as contas e alinhar a execução orçamentária às metas de equilíbrio fiscal. Na Secretaria de Planejamento, o secretário Marco Antônio Aires e o secretário executivo Daniel Pereira atuaram em coordenação direta com as orientações do prefeito Silvio Mendes, para que o planejamento de investimentos dialogasse com a realidade fiscal – especialmente num momento em que a pressão por obras é grande, mas o espaço para aumentar a dívida é politicamente sensível.
Mesmo sem novos empréstimos, a prefeitura manteve e ampliou investimentos em áreas essenciais. Na saúde, reforçou a rede e nomeou profissionais; na educação, avançou em melhorias estruturais de unidades e na valorização dos servidores; na infraestrutura urbana, além desse pacote de pavimentação e recapeamento, executou intervenções em mobilidade e drenagem; e nos serviços públicos, buscou qualificar atendimento e estrutura. A lógica defendida pela gestão é a de que disciplina fiscal não é sinônimo de paralisia de investimentos, mas de prioridade e eficiência: menos obras espalhadas e mais obras com impacto direto na vida da população.
A melhora da CAPAG também traz efeitos indiretos relevantes: permitir que Teresina renegocie passivos existentes, diminua taxas de juros da dívida já contratada e reduza o custo financeiro global. Ao reduzir o peso da dívida no orçamento, abre-se espaço para que uma fatia maior da arrecadação seja direcionada a investimentos, em vez de pagamento de juros e amortizações. É esse “ciclo virtuoso” que Edgar Carneiro resume ao dizer que a nova classificação permite “planejar o futuro com mais eficiência” e amplia a capacidade de investir com responsabilidade.
Sob a liderança do prefeito Silvio Mendes, a prefeitura tenta consolidar a imagem de um modelo de gestão ancorado em responsabilidade fiscal, eficiência administrativa e entrega de resultados tangíveis, como ruas asfaltadas, corredores de ônibus requalificados e bairros com melhor mobilidade. O plano de R$ 41,5 milhões em infraestrutura viária, financiado sem novos empréstimos, funciona, nesse contexto, como vitrine dessa estratégia: usar o fôlego reconquistado nas contas públicas para atacar problemas concretos do dia a dia, como buracos nas vias, deslocamentos demorados e insegurança no trânsito.
Ao final, a combinação entre recuperação fiscal e um amplo pacote de obras coloca Teresina em um ponto de inflexão: de um lado, a cidade volta a ter capacidade de crédito e margem para investimentos; de outro, a gestão escolhe, ao menos por enquanto, manter a rota de investimento com recursos próprios, apostando na ideia de que desenvolvimento sustentável passa primeiro por contas equilibradas. Se conseguirá manter essa equação em um cenário de aumento de demandas sociais e eventuais oscilações na arrecadação, será o teste dos próximos anos. Por ora, o asfalto novo que avança pelos 59,61 quilômetros de vias previstas é o sinal mais visível de que a cidade tenta traduzir números fiscais em melhorias concretas para quem vive e circula em Teresina.
Teresina consegue recuperação fiscal e garante maior pacote de asfaltamento com recursos próprios
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