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quarta-feira, 2 de setembro de 2020 | Wesslley Sales

Um cachorro falou comigo e me emocionou pela sinceridade. E você, já conversou com um cão?

Claro, essa é uma história fictícia, mas que talvez seja uma realidade para muitos cães abandonados

- Ei, eu sou o Rick. Você me dá uma migalha?

Nem eu acreditei que ouvira este pedido de um doguinho. Mas, olhei para ele e disse:

- Olá, Rick. Quando chegar a comida divido com você. Enquanto isso, me conte sua história.

- Moro em Picos. Fui adotado e me deram esse nome, Rick. Eu era gordinho, fofinho e fazia todo tipo de brincadeira. Meus donos estavam satisfeitos. Eu tinha comida várias vezes ao dia e brinquedos. Às vezes eu mordia chinelos e o sofá. Mamãe e papai reclamavam, mas depois sorriam e estava tudo bem. Só que eu fui crescendo e eles perceberam que eu não era tão bonito quanto o filho do vizinho, peludo e cheio de pose. Foi ai que descobri que era RND, ou melhor, um vira-latas, como ouvi eles cochichando. Aos poucos deixaram de brincar e fazer carinho. Depois, brigavam comigo até quando eu pedia um petisco. No fim, me levaram para passear, o que fazíamos sempre. Na praça, jogaram uma bola para eu pegar e quando voltei com ela já não estavam mais. Eu lati por eles, procurei por todo lugar e nada. Meus pais não existiam mais. E agora, quem iria me dar comida, banho e fazer um carinho? Eu estava só em um lugar que nunca estive antes. Estava cansado e com fome. Mudaram meu nome. Passaram a me chamar de Zé ou simplesmente cachorro. Outro dia, senti um cheirinho bom e fui atrás. Tinha muita gente e todos batiam o pé para eu correr, me enxotavam. Nada me deram. Minha barriga tava doendo de fome. Fiz umas brincadeiras para ver se alguém jogava pelo menos uma migalha. Nada. Foi quando conheci a Mãezinha. Ela já teve vários filhos. Muitos foram atropelados. Outros comidos por bichos. Ela sofre sempre que lembra. Mas, foi ela que me ensinou como viver na rua. Hoje, estamos aqui e te achei. Você já teve fome ou esperou alguma migalha cair no chão? É assim que vivemos hoje. Nós até tentamos ajudar os humanos. Outro dia, uma mulher foi para o carro e eu acompanhei para não deixar que ninguém fizesse mal a ela. Até lati para um cara esquisito. Mas, nem um olhar carinhoso recebi e ela ainda bateu a porta no meu focinho. Às vezes não entendo vocês. Ei... a comida tá chegando. Se não quiser me dar nada, tudo bem, valeu por me ouvir.


Eu já estava com a alma pesada e olhos marejados fitando aquele doguinho. O olhar dele era carinhoso e sofrido. Disse-lhe:
- Fique aqui. Você comerá comigo hoje. Não sei se você gosta de pizza, mas é o que vou jantar.

Ele latiu feliz, uma dica de que a comida agradara não só a mim.... Acabamos e ele se chegou. Colocou a cabeça na minha perna. Acariciei seu pelo amarelado e seco pela falta de um bom banho. Ele então me disse:

- A comida tava ótima. Mas, confesso, mais do que forrar a barriga, gostei mesmo foi do carinho que não sentia a muito tempo e de poder conversar com um humano sem ser chutado ou colocado para correr. Passando por aqui é só chamar, Zé... eu venho correndo, até porque sei que você parece que gosta de dividir a comida e conversar. Bom, agora deixa eu ir que a mãezinha também achou uma alma caridosa. Já é tarde e estamos com as patas queimadas de tanto chão quente. À noite, como agora, melhora, mas para quem mora na rua tempo bom é coisa rara.

E assim, o Zé foi embora abanando o rabo. Ele pulava em volta da Mãezinha latindo feliz. Olhei por um tempo meio que sem acreditar naquela conversa. No entanto, não tive como não me emocionar com aquela carinha linda e sofrida nas minhas mãos.

Claro, essa é uma história fictícia, mas que talvez seja uma realidade para muitos cães abandonados. No entanto, alguns devem achar que sou doido ou que comi ou fumei algo, rsrsrs. Não. Tenho duas meninas em casa (Flor e Julie) e elas falam sempre comigo. Se você não para para escutar o que seus pets dizem, então o louco é você. Eles tem muito a ensinar e melhor, a dar. Principalmente um amor gratuito, maior do que dão a si mesmos.

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