A proposta era acabar com a atividade dos “flanelinhas” em Teresina. A justificativa é de que essas pessoas intimidam os motoristas a pagar pelo estacionamento, sob pena de terem seus veículos danificados, segundo o autor do projeto na Câmara Municipal, vereador Petrus Evelyn (PP). Mas, na manhã desta terça-feira (29) o PL foi “enterrado” na Comissão de Segurança Pública e a pá de cal pela maioria dos vereadores em plenário, que acompanhou a relatoria do vereador Roncalim (PRD).
A decisão da Câmara Municipal de Teresina de rejeitar o projeto de lei não é um aval à desordem — é um sinal de que é possível combater os abusos sem condenar todos à marginalidade. O relator do projeto, vereador Roncalim (PRD), defendeu, em vez da extinção, a regulamentação da atividade, com medidas práticas: cadastro municipal, uso de crachá, ouvidoria para denúncias e definição de valores toleráveis de cobrança.
A proposta original, apresentada pelo vereador Petrus Evelyn (PP), tinha como base denúncias de que alguns flanelinhas estariam coagindo motoristas e até danificando veículos de quem se negava a pagar pelo “serviço”. De fato, há casos. Sim, entre os guardadores de carros existem usuários de drogas e até criminosos — como em qualquer setor da sociedade onde o Estado se faz ausente. Mas isso não justifica criminalizar todos, como destacou o vereador Edilberto "Dudu" Borges (PT), que mesmo votando pela tramitação da matéria para discussão em plenário, confirmou que vai apresentar um PL mais amplo que tem como base a regulamentação da atividade.
Uma história por trás da marginalização
Maria Zuleide, de 60 anos, é o retrato de quem seria empurrado ainda mais para a miséria se o projeto tivesse sido aprovado. Viúva, mãe de seis filhos, está desempregada desde 2012. Trabalha como flanelinha no centro e sobrevive do que recebe voluntariamente dos motoristas para sustentar a família na zona norte de Teresina.
“É daqui que eu formei minha filha. A gente olha os carros, as motos, dá informação e a gente encaminha para o lugar certo. Se sumir um capacete a gente paga. Se quebrar alguma coisa a gente paga. A gente recebe a moto e entrega ela intacta. Trabalho aqui no centro de Teresina como flanelinha e tenho orgulho, tenho prazer. Aqui é meu ganha pão. É daqui que eu vivo e tiro meu sustento. Formei minhas filhas e continuo aqui porque tem outros que dependem de mim”, afirmou.
Zuleide está longe de ser exceção. Muitos flanelinhas em Teresina são idosos, desempregados de longa data ou pessoas sem acesso a qualquer política pública de inclusão.
Caminho é regulamentar, não excluir
A criminalização de toda uma atividade só amplia os problemas sociais. O correto é identificar quem está disposto a trabalhar com honestidade, oferecer condições mínimas e criar mecanismos de controle para evitar abusos. O que Teresina precisa é de um modelo claro, que reconheça e discipline a atividade. A cidade não pode se permitir resolver um problema social com repressão cega. Ao rejeitar esse projeto, a Câmara deu um passo na direção de uma solução humana, prática e possível.
VEJA O VÍDEO, UMA ENTREVISTA FEITA PELO RADIALISTA JÚNIOR GAVIÃO:
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