• 4 de junho de 2026
ÚLTIMAS NOTÍCIAS

quinta-feira, 9 de abril de 2026 | Wesslley Sales

Justiça manda cortar cargos comissionados em Campo Maior após enxurrada de irregularidades

Mais de 80% dos servidores eram indicados políticos; decisão dá 60 dias para exonerações e expõe desrespeito à Constituição

Uma decisão da Justiça caiu como uma bomba na Câmara Municipal de Campo Maior e escancarou um problema que muita gente já desconfiava: a casa legislativa estava funcionando com uma estrutura totalmente fora do que manda a lei. Após ação do Ministério Público do Piauí, o Judiciário reconheceu que havia irregularidades graves na forma como os cargos estavam distribuídos e determinou uma verdadeira “faxina” no quadro de pessoal.

O cenário encontrado impressiona. De um total de 108 servidores, apenas 8 eram concursados, ou seja, efetivos. Enquanto isso, 87 ocupavam cargos comissionados — aqueles de livre nomeação, geralmente indicados — além de 13 agentes políticos. Na prática, isso significa que mais de 80% das pessoas que trabalhavam na Câmara não passaram por concurso público. É como se, em uma empresa, quase todos os funcionários fossem contratados por indicação, sem qualquer processo seletivo.

E o problema não é só a quantidade. Segundo a decisão judicial, esses cargos comissionados estavam sendo usados de forma totalmente irregular. Pela Constituição, esse tipo de função deve ser reservado apenas para chefia, direção ou assessoramento. Mas o que foi identificado é que muitos desses servidores estavam exercendo atividades comuns, do dia a dia, como serviços administrativos e técnicos — funções que deveriam ser ocupadas por concursados.

A situação ficou ainda mais grave porque não foi por falta de aviso. De acordo com o Ministério Público, recomendações já tinham sido feitas anteriormente para corrigir essas distorções. Mesmo assim, pouca coisa mudou. Nem decisões judiciais anteriores, que já mandavam exonerar servidores e ajustar a estrutura, foram cumpridas como deveriam. Ou seja, o problema foi empurrado com a barriga até chegar nesse ponto.

Diante disso, a Justiça decidiu agir com mais rigor. A sentença determinou que a Câmara e o Município façam a adequação do quadro de pessoal em até 60 dias, o que inclui a exoneração de todos os ocupantes de cargos comissionados considerados irregulares. Além disso, foi aplicada multa pelo descumprimento repetido de decisões anteriores, e as normas que sustentavam essa estrutura foram anuladas.

Na prática, a decisão obriga uma mudança profunda na forma como a Câmara funciona. É como desmontar um sistema inteiro e começar de novo, dessa vez seguindo as regras. E isso passa, necessariamente, pela realização de concursos públicos e pela redução drástica das indicações políticas.

O caso levanta um debate importante que vai além de Campo Maior. Ele escancara uma prática comum em muitas cidades: o uso excessivo de cargos comissionados como moeda política, deixando de lado critérios técnicos e legais. Quem paga essa conta, no fim das contas, é a população, que depende de um serviço público eficiente — e não de estruturas inchadas e desorganizadas.

Agora, com a decisão em mãos, resta saber se ela será realmente cumprida ou se vai entrar para a lista de ordens ignoradas. Porque, dessa vez, a Justiça deixou claro: ou muda, ou a situação pode piorar ainda mais para os responsáveis.

Deixe sua opinião:

Veja também: